São simples sopros que libertam pequenas palavras que me habitam

06
Dez 08

imagem retirada da net

 

Pulsátil a cada batida do coração, era assim que sentia a sua dor. A cada passo dado, mais próxima ficava do abismo. Observava o jardim ao seu redor e questionava-se – “como é possível acenar e cumprimentar alegremente quem passa, se a sua cama é um banco vermelho e frio? Porque sorri para tudo e todos quando era depende dos outros para se alimentar?”
Diariamente, Beatriz batia a porta de sua casa e rumava ao seu pequeno paraíso urbano: o imponente jardim Belladonna. Desde que deixou a sua terra natal, que este era o seu refúgio. A diversidade de pessoas, a intensidade do verde, a melodia dos pássaros encantava-a. Já tinha perdido a conta ao número de vezes que, de olhos fechados, conseguia visualizar as lembranças passadas apenas revistas nestes momentos ou no desfolhar dos álbuns.
Mas nos últimos tempos, não percebia nada de nada. “Porque se sentia triste e só? Porque ao olhar para aquele sem abrigo, sentia uma inveja da sua capacidade de estar, pelo menos aparentemente, feliz? Porque estava abandonada?”
Era uma mulher atraente e independente, o seu cargo na multinacional conferia-lhe prestígio e poder podendo auferir de excelentes horários e remunerações. Rapidamente conheceu pessoas e travou amizades. Então porque a sensação de vazio?
Nesse dia, a palavra que melhor a descrevia era exaustão, mais um passo e desfaleceria. “ Até podia ser a melhor solução”-pensou. “Não! Estaria tola ou a enlouquecer aos poucos?? Como poderia preferir essa solução? “ Avistou um banco e mal conseguiu aproximar-se, rendeu-se e deslizou o seu corpo ate ficar deitada, a observar a serenidade do azul celeste. Mal fechou os olhos partiu-não sabia onde estava, mas não gostava da sensação que lhe transmitia. “Poços?”- questionou-se. Sim, eram imensos poços húmidos e escuros e sem fundo a cercar todos os seus passos. Não conseguia libertar-se nem regressar. Sentia uma angústia que a nauseava. Agitada debatia-se, procurava soluções e sempre que pensava ter encontrado uma, surgia novo poço. Desistiu! As forças abandonaram-na e deixou-se ir… não sabia para onde mas já não se importava.
Um calor suave percorria o seu corpo fazendo-a despertar aos poucos, mas resistia. A sensação era tão agradável que não queria interrompê-la. O calor tornou-se mais intenso, “quase real”… o seu corpo dá sinais de vida, lentamente, como se acordasse de uma longa hibernação. Volta o rosto e mesmo com visão desfocada, reconhece o vulto debruçado sobre si: a mesma pessoa que todas as noites e dias fazia do Jardim Belladonna a sua casa. Assustada ergueu seu corpo dormente e permaneceu sentada tentando perceber o que se tinha passado. Não encontrou respostas mas ao voltar-se para o sem abrigo, reparou no olhar doce que transmitia. Não sabe porquê, mas todo o receio foi substituído por uma ternura e curiosidade que não contendendo-se questionou: “Viu o que me aconteceu?” Numa voz serena ouviu: “ Desculpe menina mas nada vi. Passei por aqui e estranhei vê-la a dormir no banco, como não sabia se estava consciente, toquei na sua cabeça e aí acordou. Sabe, todos os dias a vejo a passear por aqui e tenho reparado que nos últimos tempos anda triste. “
Mais uma vez, não conseguia conter os seus pensamentos e interrompendo-o perguntou: ” Como sabe isso? Apenas porque me deixei adormecer de cansaço?
- Não menina. Simplesmente porque já não pára em frente às rosas brancas que tanto gosta de cheirar, não sorri quando o seu caminho é descontinuado por brincadeiras de crianças e não se estende na relva a contemplar o universo.”
Não podia refutar. Beatriz sabia que era verdade tudo o que tinha ouvido, só não sabia o motivo.
“- Menina, sou apenas um velho que nada sabe mas adoro a arte de observar e nem imagina o que aprendo e descubro com os comportamentos das pessoas. Adorava ver a felicidade que irradiava, era uma das poucas pessoas que diariamente sorriam sabe?
- Acha que se soubesse ainda estaria assim? Sou jovem, bonita, inteligente, simpática, bem sucedida e sinto-me vazia, oca… percebe?
- Nem imagina o quanto. Também já passei pelo mesmo e durante anos, nenhum psiquiatra ou psicólogo concluíram um diagnóstico… depressão, era o que diziam. Até que ao ler um livro descobri o que realmente nos preenche. Sabe, não é trabalhando imenso ou ter boas remunerações que mudamos o mundo. O planeta não precisa de dinheiro mas sim de calor… calor humano. Para deixar esse vazio, torne-se útil mas não me refiro à sociedade. Utilize-se! Ajude quem precisa, mas directamente. Um singelo agradecimento, ou uma lágrima, um carinho ou até mesmo um sorriso que receba fará com que volte a cheirar as suas rosas predilectas. Sabe porque moro neste jardim? Porque é um local onde posso distribuir “bons dias”, elogiar o penteado novo de uma senhora que caminha desiludida porque o seu companheiro nem reparou. Um sorriso basta para apimentar mais acções. Essa senhora já não chegará zangada ao trabalho, irá dizer bom dia à secretária e cumprimentar animadamente as colegas. E assim continuará esta vibração de amor.”
Tudo parecia tão simples. Viu a mão do seu… sim, do seu anjo a tocar na sua perna e calmamente prosseguiu:
-“ Tudo anda iludido, até a menina! Só quando atingem um estatuto financeiro, poder ou fama desejada é que esperam encontrar a paz interior. Mas que fizeram eles, que fez a menina para ter esse direito? Ajudou alguém? Aconchegou quem chorava? Sorriu para quem caminha triste e sem rumo? Menina, não se esqueça que a independência financeira existe mas a social não e o maior problema humanitário não é a fome, pobreza ou guerra. A dificuldade é permitir-nos escutar: as pessoas que nos rodeiam, a natureza e sobretudo a nós. Distribua calor com uma carícia, palavra ou sorriso e verá. Amanhã, vê-la-ei a caminhar contente como sempre.” Com isto sorriu, levantou-se e fez-lhe uma festa na cabeça. Boquiaberta, só teve tempo para perguntar o seu nome:
-“ Não tenho, mas pode chamar-me SEMEADOR DE SORRISOS. Ofereço-os e felizmente germinam!”
 

autora: euzinha; texto fictício para a Fábrica de Histórias , baseado num elaborado por mim "A menina que espalhava sorrisos"

soprado por soprosdemar às 01:03
sinto-me: uma semeadora de sorrisos, lol
música: I believe I can fly

comentários:
Olá Soprosdemar! Já vi que me descobriste na Fábrica de Histórias e eu fico muito contente por isso. O teu "Semeador de Sorrisos" é um texto magnífico e o "estar-aqui" é-me muito agradável e familiar.
Um grande abraço para ti e muito obrigada!
poetaporkedeusker a 8 de Dezembro de 2008 às 00:13

foste destinguida(O) com o prémio Prémio Dardos.
http://ladymagenta.blogs.sapo.pt/
beijokas
ladymagenta a 8 de Dezembro de 2008 às 18:10

Surpreendida...muito obrigada :)
soprosdemar a 8 de Dezembro de 2008 às 21:22

Olá,
Gostei do texto e da ideia de semear sorrisos. Li o teu comentário na Fábrica de Histórias, eu n queria contribuir para nenhuma espécie de mau estar mas n pertenço às pessoas q apenas dizem mt bonito e n criticam.

Gostei muito do estilod escritivo do teu texto, tem é uma letra mt pequenina para ler, a história tem originalidade. Vamos lá semear sorrisos.

Nesta época pergunto-me quanto seria melhor esquecer as luzes q iluminam as ruas da cidade desde Novembro e alimentar antes quem nada tem. Se eu fosse edil das Câmaras fazia uma ceia gigante para quantos quisessem aparecer.

Não entendo este mundo.

Abraço, obrigada pelas tuas palavras.

Feliz Natal.
KI a 18 de Dezembro de 2008 às 13:35

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